Quando alguém pensa em largar o emprego para viver de trade, normalmente as primeiras preocupações são financeiras: conseguir desenvolver uma estratégia, aprender análise técnica, controlar o risco e alcançar consistência.
Mas existe uma consequência dessa escolha que quase nunca aparece nas conversas sobre a profissão: a solidão de ser trader.
Eu comecei nesse caminho há cerca de nove anos. Na época, ainda não tinha canal no YouTube. Eu simplesmente fiquei fascinado por gráficos, análise técnica e pela possibilidade de transformar aquilo em profissão.
Minha decisão foi bastante clara: eu seria trader, custasse o que custasse.
Eu já imaginava que seria uma profissão solitária. O que eu não imaginava era o quanto.
E talvez essa seja uma questão tão importante quanto descobrir se você possui perfil para lidar com risco. Antes de perguntar se consegue viver de trade, talvez exista outra pergunta:
Você conseguiria viver dessa maneira durante os próximos 10 ou 20 anos?
O lado do trade sobre o qual quase ninguém fala
Grande parte do conteúdo sobre day trade gira em torno das mesmas questões: estratégia, gerenciamento de risco, disciplina, controle emocional, análise técnica e resultados.
Tudo isso importa.
Só que existe outra camada na profissão.
Imagine alguém que trabalha todos os dias em um escritório. Essa pessoa chega pela manhã, cumprimenta os colegas, conversa enquanto pega um café, almoça acompanhada, participa de reuniões e comenta acontecimentos completamente irrelevantes durante o dia.
Parece banal.
Até deixar de existir.
Quando você passa a viver exclusivamente de trading, sua rotina pode se transformar basicamente em:
você, o computador e os gráficos.
E isso pode durar anos.
Minha vida antes de ser trader
Em 2016, eu ainda trabalhava de carteira assinada em uma agência no Shopping Città America, no Rio de Janeiro.
Eu tinha colegas de trabalho e aquela convivência normal de qualquer escritório.
Lembro particularmente de um aniversário meu. Não sou uma pessoa que costuma comemorar aniversário e nem fico avisando a data para os outros.
De alguma maneira, porém, o pessoal do escritório descobriu.
Resolveram então ir comigo ao Outback no horário do almoço para comemorar. Todo mundo participou, dividiram inclusive a minha parte da conta e passamos algum tempo juntos.
É uma lembrança simples.
Mas hoje ela representa exatamente uma coisa que deixa de fazer parte da rotina quando você escolhe uma profissão extremamente solitária.
Não existe mais alguém espontaneamente descobrindo que é seu aniversário no escritório.
Porque não existe mais escritório.
Nem todo mundo tem perfil para essa rotina
No meu caso, existe uma característica que facilitou muito essa transição: sempre fui uma pessoa mais solitária.
Minha bateria social não dura muito.
Gosto de ficar sozinho, ler um livro e fazer minhas coisas. Nunca fui a pessoa que precisa constantemente estar cercada de outras pessoas.
Por isso, olhando para trás, ser trader combinava bastante com a minha personalidade.
Mas e quem é exatamente o contrário?
Imagine alguém extremamente sociável, que gosta de conversar, almoçar com colegas e estar cercado de pessoas.
Essa pessoa pode aprender análise técnica.
Pode desenvolver uma excelente estratégia.
Pode aprender gerenciamento de risco.
Pode até começar a ganhar dinheiro operando.
E ainda assim descobrir que não gosta da vida de trader.
É justamente aí que existe uma diferença importante entre ter capacidade técnica para operar e ter perfil para transformar isso em profissão.
O trader pode se afastar completamente da sociedade
Quando digo que a profissão pode ser solitária, não estou exagerando.
Hoje consigo fazer compras de supermercado pela internet. Trabalho de casa. Opero de casa.
Se eu não fosse praticamente todas as manhãs à academia, poderia facilmente passar o dia inteiro sem colocar os pés na rua.
E existe algo ainda mais estranho.
Se eu não produzisse vídeos para o YouTube, poderia passar períodos enormes praticamente sem falar.
Na academia existe pelo menos aquela interação mínima:
“Bom dia.”
“Você já terminou esse aparelho?”
“Posso usar?”
Pode parecer insignificante. Mas é contato humano.
Agora imagine retirar também isso.
Um trader que trabalha exclusivamente de casa, compra tudo pela internet e não possui atividades sociais poderia literalmente passar dias sem conversar pessoalmente com alguém.
Esse é um lado da profissão que dificilmente aparece quando alguém vende a ideia de “liberdade” proporcionada pelo mercado.
Ser trader não é igual a trabalhar de home office
Existe uma comparação que parece óbvia, mas não é totalmente correta.
“Eu já trabalho de home office. Então sei como é.”
Não necessariamente.
Uma pessoa trabalhando remotamente continua inserida em uma estrutura social profissional.
Ela recebe mensagens de colegas, responde e-mails, conversa com clientes, participa de reuniões, fala com fornecedores e precisa resolver problemas com outras pessoas.
Mesmo que a comunicação não aconteça presencialmente, ela continua fazendo parte de um grupo.
O trader independente pode não ter nada disso.
Não existe chefe.
Não existe colega.
Não existe cliente esperando resposta.
Não existe reunião às 15h.
Existe apenas o mercado.
E o mercado não conversa com você.
No final, o trade vira você contra você mesmo
Essa ausência de interação também ajuda a explicar por que o componente psicológico possui tanta importância no trading.
Em um emprego convencional, o ambiente externo interfere constantemente no seu dia.
Um colega está feliz. Outro está irritado. Alguém conta uma história. Surge um problema. Você precisa ajudar outra pessoa. Depois todos vão almoçar.
Existe um mundo acontecendo ao redor.
No trading, esse ruído desaparece.
Você pode passar horas olhando para uma tela enquanto enfrenta exclusivamente suas próprias decisões.
Medo.
Ganância.
Ansiedade.
Frustração.
Euforia.
Tédio.
O mercado acaba funcionando quase como um espelho.
Por isso, a solidão não é apenas uma consequência social dessa profissão. Ela pode também amplificar a relação do trader com as próprias emoções.
A pergunta não é se você aguenta por alguns meses
Talvez você esteja começando agora e pense:
“Eu adoraria trabalhar sozinho.”
Pode ser verdade.
Mas existe uma diferença enorme entre gostar de ficar sozinho durante uma semana e construir uma vida inteira dessa maneira.
Imagine:
Dois anos.
Cinco anos.
Dez anos.
Vinte anos.
Você conseguiria manter uma rotina em que grande parte do seu dia profissional não envolve contato direto com outras pessoas?
Essa é uma pergunta muito mais séria.
Não porque exista algo errado em gostar de ficar sozinho. Algumas pessoas funcionam perfeitamente dessa maneira.
Outras não.
E ignorar essa característica antes de abandonar completamente uma carreira convencional pode transformar aquilo que parecia liberdade em isolamento.
A solidão também precisa entrar no planejamento
Quem pretende transformar trading em profissão costuma preparar o capital, estudar estratégias e estabelecer regras de gerenciamento de risco.
Talvez também seja necessário planejar a própria vida fora do gráfico.
Academia, esportes, hobbies, família, amigos, atividades presenciais e outros ambientes sociais podem ter uma importância muito maior para um trader independente do que parecem inicialmente.
Não necessariamente porque você precisa se transformar em uma pessoa extremamente sociável.
Mas porque trabalhar sozinho não significa que toda a sua vida precisa acontecer sozinho.
Existe uma diferença importante entre solitude escolhida e isolamento involuntário.
A primeira pode ser extremamente agradável para determinadas personalidades. A segunda pode começar a pesar com o passar dos anos.
Nem todo mundo precisa largar tudo para ser trader
Existe ainda outra reflexão importante.
A imagem clássica do sucesso no trading costuma envolver abandonar o emprego e passar a viver exclusivamente do mercado.
Mas essa não precisa ser a trajetória de todo mundo.
Algumas pessoas podem preferir continuar exercendo outra atividade profissional enquanto operam em determinados horários.
Outras podem trabalhar de forma híbrida.
Há quem goste de participar de comunidades de traders, estudar em grupo ou manter outras atividades paralelas.
Não existe uma obrigação de transformar o trading em uma espécie de retiro permanente diante de seis monitores.
O objetivo deveria ser construir uma rotina sustentável para a sua personalidade.
Uma nova ferramenta para quem utiliza plataformas de trading
Além dessa reflexão sobre a profissão, existe uma novidade interessante para quem utiliza plataformas de trading no dia a dia.
Durante anos, uma das reclamações recorrentes envolvendo determinadas plataformas esteve relacionada ao painel tradicional de envio e gerenciamento de ordens.
Recentemente, foi desenvolvida uma nova boleta integrada à plataforma, permitindo uma experiência mais moderna para execução e gerenciamento das operações.
A ferramenta pode ser utilizada gratuitamente por clientes elegíveis e foi criada justamente para tornar o processo operacional mais simples.
Para quem opera diariamente, pequenas melhorias de execução e organização podem fazer bastante diferença na rotina diante das telas.
Afinal, a vida de trader é para você?
Talvez essa seja a pergunta mais importante deste artigo.
Não estou falando sobre saber analisar um gráfico.
Nem sobre conseguir desenvolver uma estratégia vencedora.
Nem sobre possuir disciplina para respeitar um stop.
Estou falando sobre a vida que existe ao redor disso.
Eu tinha uma característica que tornou essa transição muito mais natural: sempre gostei de ficar sozinho. Mesmo assim, às vezes lembro daquele almoço de aniversário em 2016 e percebo como determinadas interações simplesmente desapareceram quando minha vida profissional mudou.
Para alguém extremamente sociável, o impacto pode ser muito maior.
Por isso, antes de perguntar:
“Será que o trade é para mim?”
Talvez seja melhor fazer outra pergunta:
“Será que a solidão é para mim?”
Porque aprender a operar é apenas uma parte da decisão. Você também precisa descobrir se gostaria da vida que vem junto com ela.
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