5 mentiras que traders ainda acreditam

Cinco ideias sobre day trade que muitos traders ainda tratam como verdade. Entenda o que realmente importa sobre taxa de acerto, frequência de operações, previsões, gerenciamento de risco e Fibonacci.

O mercado financeiro é cercado por ideias que são repetidas tantas vezes que acabam sendo tratadas como verdades. Algumas parecem fazer sentido à primeira vista, outras surgem de estatísticas interpretadas sem contexto e há aquelas que simplesmente fazem parte do imaginário de quem começa no trade.

O problema é que acreditar nessas ideias pode afetar diretamente a maneira como o trader opera, gerencia risco e avalia seus próprios resultados.

Neste artigo, vamos analisar cinco mentiras que traders continuam acreditando e entender por que algumas delas podem atrapalhar mais do que ajudar.

1. É estatisticamente impossível ganhar dinheiro no day trade

Essa provavelmente é uma das frases mais repetidas sobre day trade.

Normalmente, ela aparece acompanhada de estatísticas como “90% dos traders perdem dinheiro”, “95% não conseguem” ou números ainda maiores. O problema não está necessariamente na existência dessas pesquisas, mas na conclusão de que uma taxa elevada de fracasso significa que determinada atividade é impossível.

Diversas atividades altamente competitivas apresentam taxas de sucesso muito pequenas. Em concursos públicos, por exemplo, centenas de candidatos podem disputar uma única vaga. No esporte profissional, apenas uma pequena parcela das pessoas que pratica uma modalidade consegue transformá-la em profissão.

Uma atividade ser difícil é muito diferente de ser estatisticamente impossível.

Além disso, estudos sobre day trade podem incluir participantes com níveis completamente diferentes de experiência, preparação e gerenciamento de risco. Alguém que realizou poucas operações sem qualquer método pode aparecer na mesma base estatística de alguém que estudou e opera há anos.

Portanto, essas estatísticas são relevantes para demonstrar o grau de dificuldade do day trade, mas não deveriam ser interpretadas isoladamente como prova de impossibilidade.

 

2. Quanto mais você operar, mais dinheiro vai ganhar

No mercado, tempo de tela não funciona como salário por hora.

Um trader que realiza vinte operações em um dia não necessariamente terá um resultado melhor do que aquele que realizou apenas uma. Na realidade, aumentar indiscriminadamente a quantidade de operações significa aumentar também a quantidade de oportunidades de cometer erros e sofrer stops.

Existem dias em que o ativo está consolidado, períodos em que o mercado aguarda a divulgação de algum dado importante e momentos em que simplesmente não aparece uma configuração compatível com a estratégia utilizada.

Nessas situações, não operar também pode ser uma decisão racional.

O excesso de operações ainda pode favorecer problemas como overtrading, ansiedade e tentativas de recuperar rapidamente prejuízos anteriores.

Em vez de pensar:

“Quanto mais trades eu fizer, mais dinheiro posso ganhar.”

Uma abordagem mais adequada seria:

“Quanto mais operações de qualidade dentro do meu método eu encontrar, mais oportunidades válidas terei.”

Quantidade e qualidade são coisas completamente diferentes.

3. Trader bom precisa ter alta taxa de acerto

Essa é uma das métricas que mais enganam traders.

Imagine duas estratégias.

A primeira acerta 80% das operações, mas quando perde, o prejuízo é cinco vezes maior que o lucro médio das operações vencedoras.

A segunda acerta apenas 40% das operações, mas quando acerta, ganha três vezes aquilo que normalmente perde quando toma um stop.

Qual delas é melhor?

Não é possível responder olhando apenas para a taxa de acerto.

Uma estratégia pode apresentar 80%, 90% ou até mais operações vencedoras e ainda possuir uma estrutura de risco extremamente perigosa. Isso acontece, por exemplo, quando pequenas perdas não são realizadas e posições negativas permanecem abertas esperando o mercado retornar.

Durante muito tempo, o histórico pode parecer extraordinário. O problema aparece quando finalmente ocorre um movimento suficientemente forte contra a posição.

Um único drawdown pode eliminar semanas ou meses de pequenos ganhos.

Por isso, taxa de acerto isoladamente diz muito pouco. É preciso analisar também payoff, perda média, ganho médio, drawdown e expectativa matemática da estratégia.

4. Um trader precisa prever o mercado

O trabalho do trader não é saber exatamente o que acontecerá no próximo candle.

Na realidade, ninguém sabe.

A análise técnica trabalha com probabilidades, não com certezas. O objetivo é encontrar situações nas quais exista alguma vantagem estatística e estruturar a operação de maneira que uma análise incorreta não produza uma perda desproporcional.

Uma comparação interessante é com a matemática dos cassinos. Um cassino não precisa saber previamente qual será o próximo resultado de uma roleta. Ele precisa possuir uma vantagem estatística que apareça ao longo de uma grande quantidade de eventos.

No trading, a lógica probabilística é semelhante.

Suponha que determinado padrão apresente historicamente um comportamento favorável em uma porcentagem relevante das ocorrências. Isso não significa que a próxima ocorrência necessariamente funcionará.

Significa apenas que existe uma hipótese que pode ser explorada.

É justamente por isso que existe gerenciamento de risco.

O trader identifica o padrão, estabelece sua entrada, define antecipadamente quanto aceita perder caso esteja errado e determina uma relação entre risco e retorno compatível com sua estratégia.

Você não precisa saber o que o mercado fará. Precisa saber o que fará em cada cenário.

 

5. Fibonacci é apenas uma superstição

Poucas ferramentas da análise técnica provocam discussões tão intensas quanto Fibonacci.

Uma das críticas é que os níveis funcionariam apenas porque milhões de traders observam os mesmos pontos. Nesse caso, teríamos uma espécie de profecia autorrealizável: traders esperam uma reação em determinado nível, concentram ordens naquela região e essa própria concentração aumenta a possibilidade de reação.

Curiosamente, mesmo essa crítica não necessariamente elimina a utilidade prática da ferramenta.

Se muitos participantes acompanham determinadas retrações e projeções, esses níveis podem se transformar em regiões relevantes justamente pelo comportamento coletivo do mercado.

Além disso, Fibonacci pode ser utilizado não apenas para procurar retrações, mas para projetar movimentos proporcionais, estabelecer possíveis objetivos e organizar relações entre diferentes pernas de um movimento.

Isso não significa que o preço seja obrigado a respeitar 38,2%, 50%, 61,8% ou qualquer outra proporção.

Fibonacci não transforma uma análise probabilística em certeza.

A ferramenta ganha sentido quando utilizada dentro de um contexto técnico mais amplo, combinada com estrutura de mercado, tendência, suportes, resistências e gerenciamento de risco.

O que essas cinco mentiras têm em comum?

Existe um padrão interessante entre todas elas: a tentativa de transformar trading em algo absoluto.

Ou day trade é impossível ou é fácil. Ou uma estratégia funciona ou não funciona. Ou o trader acerta ou erra. Ou determinado nível será respeitado ou será completamente inútil.

O mercado raramente funciona dessa maneira.

Um trader pode possuir apenas 40% de acerto e ganhar dinheiro. Outro pode acertar 80% e perder. Alguém pode passar uma sessão inteira sem operar e ter tomado uma decisão melhor do que quem realizou quinze trades.

Da mesma maneira, uma boa análise pode terminar em stop.

Isso não significa necessariamente que a análise estava errada. Significa que estamos lidando com probabilidades.

No longo prazo, a questão mais importante não é descobrir uma maneira de eliminar completamente os erros, mas construir um método no qual os erros sejam controlados e os acertos tenham espaço suficiente para compensá-los.

Essa mudança de perspectiva talvez seja uma das diferenças mais importantes entre simplesmente tentar acertar o próximo movimento e começar a pensar como trader.

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