Existem dezenas de figuras clássicas na análise técnica. Ombro-cabeça-ombro, cunhas, topo duplo, bandeiras e tantas outras aparecem em praticamente qualquer livro ou curso sobre análise gráfica. Mas isso não significa que todas tenham a mesma utilidade prática.
Depois de ranquear indicadores, ferramentas, estratégias de day trade e padrões de candlestick, chegou a hora de fazer o mesmo com as figuras da análise técnica.
Neste ranking, vou do quinto lugar — a figura que considero menos interessante — até o primeiro, que considero o melhor padrão gráfico entre os selecionados. O critério não é simplesmente perguntar se determinado padrão “funciona”. Quero avaliar principalmente a lógica por trás dele, a clareza do gatilho de entrada, a utilidade das informações presentes na figura e sua aplicação prática no gráfico.
5º lugar: Ombro-Cabeça-Ombro (OCO)
Começamos com uma escolha que provavelmente vai gerar discussão: Ombro-Cabeça-Ombro, o famoso OCO.
O OCO é apresentado como uma figura clássica de reversão baixista. Ele normalmente aparece depois de uma tendência de alta e é composto por três regiões:
primeiro ombro, cabeça e segundo ombro.
A cabeça representa um topo acima dos demais. Depois dela, o preço tenta novamente subir, mas não consegue alcançar a máxima anterior, formando o segundo ombro.
Os fundos da estrutura são utilizados para construir a chamada linha do pescoço. Quando essa região é perdida, teríamos a confirmação do padrão e o possível gatilho para uma operação vendida.
A projeção tradicional do objetivo é feita medindo a distância entre a cabeça e a linha do pescoço e projetando essa mesma amplitude a partir do rompimento.
Tudo muito bonito na teoria.
Mas existe uma pergunta que sempre me incomodou:
para que eu preciso do primeiro ombro?
O problema do OCO
Imagine que simplesmente apagássemos o primeiro ombro do gráfico.
O que sobraria?
Um topo principal, seguido por um topo mais baixo e posteriormente pela perda de um fundo.
Isso nada mais é do que uma estrutura clássica de pivô de baixa.
O gatilho operacional continuaria praticamente no mesmo lugar: perda do fundo.
Também já existe um topo descendente que pode servir como referência técnica para posicionamento do stop.
Até mesmo a projeção tradicional do OCO tende a entregar uma região semelhante à projeção de 100% do pivô de baixa.
Então chegamos ao problema: consigo retirar aproximadamente um terço da figura e continuar fazendo essencialmente a mesma leitura.
Isso não significa que o Ombro-Cabeça-Ombro não funcione. Existe lógica técnica e vantagem em determinados contextos. Minha crítica é outra: parte da figura é desnecessária para a tomada de decisão.
Por isso, apesar de ser um dos padrões gráficos mais famosos da análise técnica, o OCO fica apenas na quinta posição.
4º lugar: Cunha
Na quarta colocação está a cunha, tanto em sua versão descendente quanto ascendente.
Visualmente, a cunha possui duas linhas convergentes. À medida que o preço avança, a amplitude dos movimentos vai diminuindo e o mercado fica progressivamente comprimido.
Uma cunha descendente, por exemplo, continua apresentando topos e fundos descendentes, mas esses movimentos ficam cada vez menores.
A interpretação tradicional é de perda de força dos vendedores e possibilidade de reversão para cima.
É justamente aí que começam os problemas.
Romper a cunha não significa necessariamente reverter a tendência
Quando o trader identifica uma cunha descendente como padrão de reversão, existe o risco de começar a ficar enviesado para compra enquanto a estrutura do mercado continua sendo de baixa.
A resposta clássica seria:
“Mas você só compra depois que o preço romper a linha superior da cunha.”
O problema é que romper uma linha inclinada não necessariamente significa mudar a estrutura do mercado.
O preço pode ultrapassar a linha superior e continuar abaixo do último topo relevante.
Nesse cenário, houve rompimento geométrico da figura, mas ainda não existe necessariamente uma estrutura de alta.
Essa diferença é importante.
Quando utilizamos topos, fundos, suportes e resistências horizontais, normalmente temos níveis de preço mais objetivos. Em uma linha inclinada, o preço de rompimento muda conforme o tempo passa.
Além disso, Thomas Bulkowski, autor de Encyclopedia of Chart Patterns, é citado na própria transcrição como uma referência que atribui desempenho pouco impressionante às cunhas.
Por esses motivos, elas ficam em quarto lugar.
3º lugar: Cup and Handle
No meio do ranking aparece outro padrão extremamente conhecido: Cup and Handle, ou xícara com alça.
Existe vantagem em observar essa formação, mas ela apresenta um problema parecido com aquele encontrado no Ombro-Cabeça-Ombro.
Primeiro, vamos entender a figura.
O mercado está em movimento de alta e passa por uma correção relativamente longa e arredondada, formando aquilo que seria a “xícara”. Depois de retornar à região da resistência, acontece uma correção menor, formando a “alça”.
Finalmente, o rompimento da resistência oferece o gatilho de entrada.
Mas qual parte realmente interessa para a operação?
Precisamos mesmo da xícara inteira?
Na prática, temos uma resistência testada anteriormente, uma pequena correção que cria uma referência técnica para o stop e, posteriormente, o rompimento dessa resistência.
Ou seja:
estamos comprando o rompimento de uma resistência depois de um pullback.
A alça é particularmente útil porque cria estrutura próxima ao ponto de entrada.
Mas será que precisamos realmente daquele enorme fundo arredondado construído muito antes para tomar a decisão?
Esse é o motivo pelo qual o Cup and Handle não chega às duas primeiras posições.
Assim como no OCO, existe informação dentro da figura completa que não considero indispensável para executar a operação.
Ainda é um padrão válido e possui uma lógica operacional clara. Por isso fica exatamente no meio do ranking: terceiro lugar.
2º lugar: Topo Duplo
Agora entramos nos padrões que considero realmente bons.
Em segundo lugar está o topo duplo.
E uma das grandes qualidades dessa figura é justamente sua simplicidade.
Imagine um ativo em tendência de alta.
O preço chega a determinada região e encontra uma quantidade suficiente de vendedores para interromper o movimento. O mercado cai e deixa um primeiro topo.
Depois, os compradores voltam.
O preço sobe novamente até aproximadamente aquela mesma região e encontra vendedores pela segunda vez.
Agora temos algo extremamente interessante: duas rejeições na mesma resistência.
Por que o topo duplo é tão útil?
Diferentemente de algumas figuras anteriores, praticamente todos os elementos presentes no topo duplo possuem função.
Os dois topos confirmam a importância daquela região de resistência.
O fundo entre eles cria outro nível horizontal claramente identificável.
Se esse fundo for perdido, temos um possível gatilho para uma operação vendida.
Portanto, conseguimos identificar de maneira relativamente objetiva:
onde está a resistência, onde ocorre a confirmação e onde existe uma referência técnica para proteção da operação.
A estrutura também conversa diretamente com conceitos clássicos da análise técnica e da Teoria de Dow.
Depois de uma tendência de alta, o mercado encontra resistência, tenta novamente superar a máxima e falha. Posteriormente, perde um fundo relevante.
Existe uma sequência lógica de acontecimentos mostrando uma possível mudança no equilíbrio entre compradores e vendedores.
Diferentemente do OCO, não dá para apagar metade da figura
Essa é outra vantagem importante.
Se retirarmos um dos dois topos, perdemos justamente a principal característica do padrão: a dupla confirmação da resistência.
Um único topo pode ser utilizado como referência técnica. Mas dois testes malsucedidos na mesma região acrescentam informação à análise.
Cada componente da figura tem uma função.
É simples, visual e baseado em níveis horizontais claramente definidos.
Por isso, o topo duplo merece a segunda posição.
1º lugar: Bandeira
Chegamos à primeira colocação.
Para mim, entre as figuras analisadas, o melhor padrão gráfico é a bandeira, tanto em movimentos de alta quanto de baixa.
E existe uma razão muito simples para isso:
a bandeira permite procurar uma entrada em uma tendência sem necessariamente perseguir um preço já excessivamente esticado.
Essa característica é extremamente valiosa.
Imagine que o mercado tenha iniciado uma forte tendência de alta, mas você perdeu o primeiro movimento.
Comprar depois de uma longa arrancada pode significar entrar justamente quando o preço está distante demais de suas referências técnicas.
A bandeira oferece outra possibilidade.
O mercado sobe, faz uma pausa ou uma correção e cria uma nova estrutura dentro daquela tendência.
É um verdadeiro “descanso” do movimento principal.
Como funciona uma bandeira de alta?
Primeiro ocorre um movimento forte de valorização, conhecido como mastro da bandeira.
Depois disso, o mercado passa por uma consolidação ou pequena correção.
Frequentemente essa correção ocorre na direção oposta à tendência predominante, embora ela também possa assumir uma estrutura praticamente horizontal.
Martin Pring, em Análise Técnica Explicada, é mencionado na transcrição justamente como exemplo de autor que apresenta bandeiras que podem assumir uma configuração semelhante a um retângulo horizontal.
Outro elemento importante é o volume.
Em uma bandeira de alta saudável, espera-se que a correção apresente volume financeiro inferior à média recente, reforçando a interpretação de que aquele movimento contrário pode representar apenas uma pausa dentro da tendência principal.
Com o rompimento da bandeira, a projeção tradicional utiliza a amplitude do mastro como referência para o possível objetivo do movimento.
Frequência também importa
Existe ainda uma enorme vantagem prática da bandeira em relação a padrões muito raros: ela aparece com frequência.
Não adianta conhecer uma figura extraordinária se você precisa passar meses procurando uma ocorrência perfeita.
Bandeiras aparecem regularmente em mercados direcionais.
Isso permite que o trader encontre oportunidades de continuação sem precisar tentar antecipar fundos e topos.
Essa talvez seja sua maior qualidade: em vez de lutar contra a tendência procurando uma reversão, a bandeira procura justamente uma oportunidade de participar da tendência predominante depois de uma pausa.
Por isso ela ocupa a primeira posição.
Ranking final das figuras da análise técnica
O ranking fica assim:
Bandeira — excelente
Topo Duplo — muito bom
Cup and Handle — intermediário
Cunha — fraco
Ombro-Cabeça-Ombro — último colocado
Isso não significa que o OCO nunca funcione ou que toda bandeira deva ser operada.
Nenhuma figura gráfica elimina a incerteza do mercado.
A ideia deste ranking é avaliar quanto cada padrão acrescenta à leitura que já poderíamos fazer utilizando estrutura de preço, tendência, suportes, resistências, volume e pivôs.
E esse é justamente o ponto que considero mais importante.
Figuras gráficas devem simplificar a leitura, não complicá-la
Dar nomes para formações pode ser útil porque facilita o reconhecimento visual de comportamentos recorrentes do preço.
O problema começa quando o trader passa a procurar desenhos no gráfico e esquece aquilo que realmente está acontecendo por trás deles.
Um topo duplo não é interessante simplesmente porque parece a letra “M”. Ele é interessante porque mostra duas rejeições em uma região de resistência e posteriormente oferece um nível objetivo cuja perda pode confirmar enfraquecimento da estrutura anterior.
Uma bandeira não é boa porque parece uma bandeirinha. Ela é útil porque representa uma pausa ou correção dentro de um movimento predominante, potencialmente oferecendo uma nova oportunidade de entrada sem perseguir um mercado esticado.
Essa deve ser a lógica.
Antes de decorar o nome de qualquer figura, pergunte:
Que informação essa formação está realmente acrescentando à minha leitura do preço?
Se você consegue responder isso, deixa de simplesmente procurar desenhos no gráfico e começa a entender a estrutura que existe por trás deles.
-> Confira o vídeo:
>> Veja também: